beijo de despedida

Não sou uma de escrever sobre amor. Ainda mais amor entre dois corpos, dois seres humanos. Sinto que sou muito míope pra poder enxergar o verdadeiro amor entre pessoas. Sou mais o tipo de pessoa que pressente, sente e imagina.

Mas hoje, além de sentir, finalmente enxerguei. Já testemunhei esperança e mágoa durante cumprimentos e despedidas. O tipo mais doloroso, porém caloroso é quando corpos ficam separados pelo espaço e pelo tempo, tendo certeza que vão se ver logo. Mas mesmo assim, carregam uma certa insegurança no sorriso como se já soubessem que a próxima vez que estarão fisicamente juntos demorará pra chegar.

Ah, que angústia ao ver uma despedida apressada. Com medo do trem fechar suas portas, o homem abaixou sua cabeça para aproximar do pescoço alongado da mulher que já o esperava com um beijo de despedida. E ainda antes de sair do vagão, o homem deu mais uma olhada pra trás e acenou dizendo, “tchaaau!”
Ela sorriu suavemente de volta e o trem partiu.

T.

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meias verdes

Eu estou andando de metrô todos os dias e logo aprendi a fazer pouco contato visual com as pessoas e adotar a técnica “cara de árvore” que fazemos quando olhamos pra fora da janela pra poupar a bateria do smartphone. Porém, eu costumo olhar pro chão e foi assim que eu vi: meias verdes com desenhos (pareciam sapos, mas não consegui decifrar) dentro de sapatos marrons. O dono das meias verdes usava calça capri verde esmeralda, uma camisa branca e uma mochila roxa com detalhes em marrom escuro. Entre tons terra, preto e cinza, as meias verdes destacaram bastante naquele vagão. Infelizmente eu não tenho coragem de deixar minhas meias à mostra, costumo escondê-las bem dentro de botas de cano curto. Mas acho que minhas meias de onça fariam sucesso…

Logo vi que eu não era a única olhando para as meias verdes. Muitos olhos o seguiam e muitas cabeças viraram quando as meias verdes atravessaram o primeiro vagão até a porta de saída. Depois disso, tudo voltou a ser cinza, branco, bege, normal e igual. Procuramos fugir da mesmice mas, ao mesmo tempo, vivemos com medo de sermos diferentes.

Apesar de eu não ser dona de um par de meias verdes, eu posso ser dona de um gesto bondoso no vagão do metrô ou de um sorriso ao cruzar com estranhos em ruas estreitas.

E o dono das meias verdes nunca saberá que ele me fez perceber algo importante naquele dia.

 T.