beijo de despedida

Não sou uma de escrever sobre amor. Ainda mais amor entre dois corpos, dois seres humanos. Sinto que sou muito míope pra poder enxergar o verdadeiro amor entre pessoas. Sou mais o tipo de pessoa que pressente, sente e imagina.

Mas hoje, além de sentir, finalmente enxerguei. Já testemunhei esperança e mágoa durante cumprimentos e despedidas. O tipo mais doloroso, porém caloroso é quando corpos ficam separados pelo espaço e pelo tempo, tendo certeza que vão se ver logo. Mas mesmo assim, carregam uma certa insegurança no sorriso como se já soubessem que a próxima vez que estarão fisicamente juntos demorará pra chegar.

Ah, que angústia ao ver uma despedida apressada. Com medo do trem fechar suas portas, o homem abaixou sua cabeça para aproximar do pescoço alongado da mulher que já o esperava com um beijo de despedida. E ainda antes de sair do vagão, o homem deu mais uma olhada pra trás e acenou dizendo, “tchaaau!”
Ela sorriu suavemente de volta e o trem partiu.

T.

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suave desequilíbrio

Fui feita assim, desafinada.
Mas sou dona de uma voz que me faz falar e ser ouvida por outros.

Fui feita assim, com um olho maior que o outro.
Mas sou dona de um par de olhos pra enxergar as belezas e impurezas do mundo.

Fui feita assim, com uma perna esguiada pra dentro, causando desconforto quando uso sapatos muito fechados.
Mas sou dona de um par de pernas que me guia por vários lugares do mundo.

Fui feita assim, com um sorriso torto que está me levando anos para consertar.
Mas sou dona de um sorriso que me auxilia na expressão de gratidão e felicidade.

Fui feita assim, com uma pele pálida, mas meu valor não está vinculado à nada físico.

Fui feita assim, com mechas de fios brancos entre meus fios castanhos, um lembrete conspícuo que os anos estão passando.

T.

pequenas

Sabe aquela preguiça que bate depois do almoço, independente do tamanho da porção de carboidrato que ingeriu ou sobremesa que não resistiu? Seeeeei.

Não importa se é pra ir pra aula ou pra escolinha onde trabalho, sinto vontade de estar em casa, com roupas mais largas e confortáveis. Apesar de eu sentir isso inúmeras vezes, eu sinto que volto um tanto mudada quando entro em casa a noite. Além das minhas aulas serem bastante estimulantes, com discussões sobre assuntos que me fortalecem academicamente, eu aprendo muito quando estou entre crianças onde trabalho. Apesar de alguns falarem às vezes em frases ininteligíveis, eu vejo como estes pequenos estão aprendendo a enxergar o mundo. São dedinhos que apontam para o céu perguntando sobre o formato das nuvens ou que pegam na minha mão pra me levar pra conhecer os bichinhos de pelúcia ou que montam um quebra-cabeça de 12 peças gigantes. E todos os dias quando lembro de pequenos grandes momentos como estes, não há como não sorrir também.

No final das contas, são os rostinhos deles que fazem a grande diferença quando volto pra casa. Como é possível um rosto tão pequeno comportar um sorriso tão grande? Apesar da minha mão conseguir cobrir um rosto, eu queria poder pegar um sorriso entre meus dedos, segurá-lo em meu punho e guardá-lo dentro do bolso para futuras ocasiões quando um sorriso vira uma raridade e uma necessidade.

E logo hoje ouvi um coral de gargalhadas, mas gargalhadas tão fortes que meu tímpanos começaram a pulsar, minhas sobrancelhas saltaram e meus olhos esbugalharam. Tamanha inocência e pureza que caracteriza as ações destas crianças me faz querer enxergar o mundo de uma maneira mais positiva. Apesar dos poucos meses que trabalho alí, já são pequenas, logo importantes, mudanças que fui observando, como uma menina tímida que já gargalha alto e brinca com outras crianças e um menino que agora corre sem cair. Pequenas mudanças que às vezes não são notadas. Talvez os nossos dias também trazem mudanças em nossos relacionamentos, nossas escolhas e passos para vencer na vida.

Quem diria que um grande sorriso vindo de pequenas pessoas teria um poder fascinante assim?

T.

meias verdes

Eu estou andando de metrô todos os dias e logo aprendi a fazer pouco contato visual com as pessoas e adotar a técnica “cara de árvore” que fazemos quando olhamos pra fora da janela pra poupar a bateria do smartphone. Porém, eu costumo olhar pro chão e foi assim que eu vi: meias verdes com desenhos (pareciam sapos, mas não consegui decifrar) dentro de sapatos marrons. O dono das meias verdes usava calça capri verde esmeralda, uma camisa branca e uma mochila roxa com detalhes em marrom escuro. Entre tons terra, preto e cinza, as meias verdes destacaram bastante naquele vagão. Infelizmente eu não tenho coragem de deixar minhas meias à mostra, costumo escondê-las bem dentro de botas de cano curto. Mas acho que minhas meias de onça fariam sucesso…

Logo vi que eu não era a única olhando para as meias verdes. Muitos olhos o seguiam e muitas cabeças viraram quando as meias verdes atravessaram o primeiro vagão até a porta de saída. Depois disso, tudo voltou a ser cinza, branco, bege, normal e igual. Procuramos fugir da mesmice mas, ao mesmo tempo, vivemos com medo de sermos diferentes.

Apesar de eu não ser dona de um par de meias verdes, eu posso ser dona de um gesto bondoso no vagão do metrô ou de um sorriso ao cruzar com estranhos em ruas estreitas.

E o dono das meias verdes nunca saberá que ele me fez perceber algo importante naquele dia.

 T.